quarta-feira, 28 de maio de 2008

Archipel




Archipel é uma empresa belga que se dedica à divulgação de arquitectura mundial através da organização de viagens guiadas e a publicação de boletins periódicos. Há cerca de dois meses fui contactado no sentido de poder fornecer mais informações sobre e existência de arquitectura moderna no concelho. Ponte de Lima estava inserida numa visita a realizar entre Espanha e Portugal. O album fotográfico resultante desta excursão pode ser visto aqui. É uma prova da importância de Ponte de Lima na rota na arquitectura moderna.

domingo, 18 de maio de 2008

Casa entre-muros


1.pequeno nicho religioso
2.búzios pintados de azul incustrados na parede
3.cruz desenhada com pequenos mosaicos sanitários


Esta modesta casa situada próxima da Capela das Pereiras num estreito caminho entre muros limites da Quinta da Casa de Aurora é o exemplo da criatividade a baixos custos e dedicação do seu último morador. Sendo obviamente discutível o seu gosto não passa indiferente a quem por ela passa. Hoje esta pequena moradia que se confunde com o próprio muro não tem a manutenção impressa pelo proprietário entretanto falecido, no entanto aqui fica registado o seu empenho.

O grande licenciador

Não resisto em publicar o excelente artigo que Daniel Carrapa publicou no seu blog "A Barriga de um Arquitecto" sobre a realidade do licenciamento de projectos nas nossas autarquias.

O grande licenciador

Em resultado do enquadramento legal que envolve a prática da arquitectura em Portugal discute-se muito quem pode afinal fazer arquitectura?
O tema é extenso e por certo relevante. Mas este debate não se faz acompanhar de um outro que talvez valesse a pena começar a dramatizar: quem licencia essa arquitectura? E como?

As Câmaras Municipais têm a seu cargo o exercício do licenciamento de projectos de arquitectura. Assim, os trabalhos de arquitectura promovidos pelos cidadãos são sujeitos ao escrutínio estatal, com vista a apreciar se estão em conformidade com as regras urbanísticas e edificatórias em vigor.
O que isto significa é que o acto do licenciamento desempenha uma função jurídica. A autoridade conferida aos organismos licenciadores do Estado resulta de se suportar em regras que estão devidamente inscritas na legislação e publicadas enquanto tal. Caso contrário, estaríamos na presença de um acto discricionário, ao sabor do entendimento pessoal e subjectivo de cada técnico ou entidade que exerce essa função.

Um dos graves problemas – diria mesmo dramas – de produzir arquitectura em Portugal resulta da fraca cultura institucional das Câmaras Municipais e demais organismos do Estado sobre o significado do serviço público que deviam exercer. A falta de rigor jurídico, o incumprimento de prazos legais de tramitação processual, a falta de objectividade em relação ao que é essencial e acessório no que respeita aos interesses públicos e privados em presença, resultam num verdadeiro atentado à actividade económica e ao espaço de liberdade individual dos cidadãos. Resultado dessa cultura institucional débil, o cidadão acaba por ser confrontado com pareceres técnicos que misturam factos jurídicos com asserções de dimensão completamente pessoal e subjectiva, do entendimento do técnico individual ou do colectivo institucional que exerce a autoridade de licenciamento.

Devia reflectir-se seriamente sobre o que está aqui em causa. Já será negativo que em certas instituições se cultive um culto de rigor que é, em boa verdade, a mais cega e estrita interpretação possível da legislação. Mas quando este exercício recai para o terreno da completa indistinção entre legal e opinativo, entre o objectivo e o subjectivo, as consequências tornam-se ainda mais graves. Licenciar torna-se assim o mais discricionário exercício de autoridade à mercê dos seus técnicos e dos seus caprichos. Quando o seu zelo não se faz acompanhar de cultura arquitectónica ou saber técnico (histórico, patrimonial ou qualquer outro), os cidadãos vêm-se sujeitos às mais irrelevantes asserções e imposições sobre beirados, alisares, cores locais e essa anedota que dá pelo nome de traça original.

É muito importante que se compreenda de forma inequívoca que a autoridade dos agentes do Estado resulta da inscrição das suas disposições em suporte legal. Quando não estão em presença valores devidamente identificados e regulamentados, a sua actuação casuística e caprichosa faz resvalar essa autoridade para um exercício ilegítimo, sem transparência e, mais grave ainda, sem validade legal. Uma situação que promotores musculados poderão rebater facilmente com suporte jurídico, mas a que cidadãos e profissionais, por desconhecimento ou receio de retaliação, se acabam muitas vezes por submeter.

A reflexão importante que deveria fazer-se em torno do que serão boas práticas de licenciamento será inútil se realizada com mero intuito de culpabilização dos seus agentes. É certo que o Estado se debate com problemas de qualificação técnica e humana, de organização, metodologias e meios. E que a nebulosa cacofónica de legislação do sector torna o trabalho de licenciamento um pesadelo para os técnicos directamente envolvidos. O que está em causa, verdadeiramente, é a urgência em inscrever no Estado uma doutrina de qualidade. A instituição de uma cultura de serviço público e a compreensão de que as más práticas têm como consequência um pesado prejuízo colectivo e o desrespeito pelos direitos individuais dos cidadãos. A cegueira em afrontar este problema terá como resultados, de simplex em simplex, a perda de autoridade dos agentes estatais e, por fim, a desregulamentação total.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Entrada da vila


Entrada na vila no principio dos anos 70 com o Palacete Villa Moraes em pano de fundo. Interessante a percepção de como o já raro património de sinalização de localidades pertencente às Estradas Nacionais de Portugal era esteticamente mais interessante e sobretudo mais claro do que a actual confusão sinalizadora à entrada das nossas urbes.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Ruína


Este interessante prédio na Rua do Postigo, provavelmente o mais antigo da rua como denuncia o rés-do-chão em pedra com um alinhamento de rua anterior ao actual e o balcão dos pisos superiores avançando em madeira sobre o passeio, começa a dar sinais de ruína eminente. Esperemos que um dos poucos exemplares de arquitectura em madeira existentes no centro histórico não desapareça irremediavelmente.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Reparo - Cemitério



Quando escrevi o artigo chamado "a dessacralização do cemitério" chamaram-me a atenção para um pormenor que por descuido não mencionei. O muro do cemitério, onde hoje está desenhada uma linha amarela de proibição de estacionamento, era pontuada por cruzeiros provenientes do calvário demolido entre o Largo da Lapa e o início da Rua do Pinheiro. Aqui fica questão da mesma forma que me foi formulada: "Onde param os cruzeiros do cemitério?"

Porta


Porta lateral da igreja românica de S.João da Ribeira

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Integração

fotos acima: José Manuel Rodrigues




Muito se tem discutido sobre a inserção equilibrada de novas arquitecturas em tecidos urbanos consolidados. É um dos temas mais caros à arquitectura. Uns optam pela integração pela aposta na diferença, assumindo claramente essa modernidade (é o caso do posto de Turismo ou do Mercado Municipal em Ponte de Lima); outros apostam pela integração através de uma leitura cuidada dos vários elementos comuns que se repetem uniformemente pelo espaço urbano. É o caso desta intervenção em Lisboa entre a Baixa e o Chiado do arquitecto Álvaro Siza Vieira. O vazio existente no local foi "preenchido" com uma solução que dialoga com o ambiente arquitectónico envolvente de forma silenciosa mas que em simultâneo não deixa de explorar uma certa contemporaneidade. Estas foram as raízes geradoras do projecto.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Teatro




Através do blog "Parar para Pensar" tomei conhecimento da vontade do município em adquirir o edifício da Santa Casa da Misericórdia em frente ao teatro Diogo Bernardes com o objectivo de criar uma praça em frente ao mesmo. Tradicionalmente os teatros municipais eram construídos dentro do tecido urbano, conformados por uma praça ou então eram a oportunidade de enobrecer um determinado local. Não foi o caso do nosso teatro. O terreno gentilmente cedido por João Rodrigues de Morais para a sua construção situava-se já na época nos limites do centro histórico e com uma entrada excessivamente próxima do trânsito. Parece-me uma excelente ideia o alargamento da plataforma pedonal defronte do teatro criando mais conforto e uma entrada mais atractiva de forma a resolver um problema de raiz na implantação deste edifício. Apenas guardo algumas reservas em relação ao destino do edifício que se situa em frente ao teatro e a sua fachada de grandes portões em forma de arco e que me parece ter algum interesse.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Recuperação em Brandara - Ponte de Lima

situação actual


proposta

plantas piso -1/ piso 0/ piso 1


Excerto da memória descritiva:

"A habitação, presentemente em estado de ruína, situa-se numa freguesia eminentemente
rural do concelho de Ponte de Lima. Nos últimos anos, a construção de um aterro consequente de um túnel de uma auto-estrada reduziu o terreno envolvente à ruína.
O programa proposto refere-se à recuperação da ruína dedicando-a ao turismo rural.
Não oferecendo a habitação muitos dados em relação aos seus elementos originais, devido ao elevado estado de degradação, o estudo da arquitectura vernácula da região levou-nos a sintetizar determinadas características comuns. As casas rurais do Alto Minho respondiam às necessidades dos agricultores com o piso térreo a servir de adega, espaço para o lagar, gado ou armazenamento das alfaias agrícolas. No piso superior situavam-se as dependências habitáveis como a sala, cozinha e quartos. Em alguns casos , o piso superior albergava também um espaço ventilado de armazenamento de milho. Isto acontecia através de uma fachada com um sistema ripado em madeira semelhante aos espigueiros. Esta situação acontecia originalmente nesta habitação em estudo. Infelizmente são raros os casos que chegaram aos nossos dias devido à sua fragilidade construtiva.
As necessidades actuais são outras assim como as exigências de conforto.
Optamos por direccionar a intervenção no sentido de recuperar toda a estrutura em pedra tal como ela chegou aos nossos dias e reconstituir a volumetria do edifício com a sua varanda e marquise originais assim como a reposição dos pilares de pedra que a sustentam. Evocamos assim as características tradicionais do edifício não nos comprometendo com a história. Na impossibilidade de recuperar todos as características originais, a intervenção terá pontualmente soluções construtivas mais contemporâneas mas que se relacionem harmoniosamente com o conjunto global. Desta forma assumimos a modernidade sem cairmos no erro de reconstituir os elementos falaciosamente. De uma forma geral o projecto privilegiará os materiais de construção tradicionais como a pedra a madeira e o ferro.
O acesso à casa poderá ser efectuado através de dois pontos. O primeiro, pela entrada original e o segundo pelo estacionamento a ser criado a norte da casa. Este último sugerirá um percurso através do alpendre que se abre para os lados norte e sul. Ambos os percursos levarão ao piso térreo da casa onde se localizará uma pequena recepção ao turista.
No piso térreo, para responder a um programa flexível e simultaneamente resolver o problema da escassez de área e de luminosidade, considerou-se relevante evidenciar, segundo novos propostos e novas soluções formais, a simplicidade das soluções espaciais, a fácil leitura das funções e interligação das áreas. Apesar deste espaço ser iluminado pelas aberturas originais como as duas portas existentes, achamos não ser suficiente para o espaço da cozinha. Desta forma, este espaço será ainda servido por uma clarabóia e uma janela do piso superior.
Este espaço único alberga também as comunicações verticais e a sala de jantar. No piso superior, três quartos e um escritório convertível noutro quarto são servidos por uma galeria/varanda com portadas duplas em ripas de madeira evocando a fachada original. Esta varanda tem acesso ao pátio exterior virado a sul através das escadas de pedra existentes.
A área no interior da ruína é escasso para o programa exigido. Optamos por anexar a sala de estar a um volume novo. Uma espécie de plataforma solo que compreende também a piscina e os balneários de apoio. É um volume com pouca presença acima do solo de forma a não perturbar a volumetria geral do volume antigo."


André Rocha

sábado, 12 de abril de 2008

blog


Achei curioso o facto de um blog de nacionalidade espanhola dedicado à arquitectura e fotografia tenha utilizado o edifício do novo posto de turismo do arquitecto João Álvaro Rocha como layout da página.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

que futuro?






O edifício da Transformadora Industrial do Norte (preparação de minérios), há vários anos ao abandono, espera por uma revitalização que dignifique a sua história. O imóvel, pela sua qualidade arquitectónica, localização privilegiada no lindíssimo Largo da Freiria e jardim anexo carregado de potencialidades, assume-se como uma oportunidade dinamizadora que a vila de Arcozelo não deverá subestimar.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Arquitectura Popular

"Arquitectura Popular em Portugal"


Casa rural desvirtuada através da adição de um novo piso dissonante


moradia contemporânea com elementos tradicionais de uma arquitectura classizante



As edições de "A Arquitectura Popular em Portugal", iniciativa do então Sindicato Nacional de Arquitectos, dividem-se tematicamente pelas várias províncias do país. Equipas de arquitectos se organizaram-se para uma inventariação e estudo do património nos anos 50. Esta obra apresenta-se cada vez mais como uma obra ímpar de valor inestimável a uma boa preservação e valorização do património arquitectónico de cariz mais rural, popular. Depois de uma deturpação daquilo que se julgava ser uma arquitectura tradicional, divulgada nos primeiros anos do Estado Novo e sobretudo através dos manifestos do arquitecto Raul Lino como resistência à entrada no país dos ideais modernos já consolidados pela Europa.
O volume que diz respeito ao estudo do Minho e Douro Litoral é coordenado pelo arquitecto Fernando Távora. A ideia era procurar as verdadeiras raízes de uma arquitectura popular tipicamente portuguesa para a construção de uma arquitectura moderna fundamentada nos seus elementos mais ancestrais.
Este inventário é tão mais importante quando foi realizado imediatamente antes das grandes transformações que se processaram no território no pós-25 de Abril. Os registos fotográficos e a análise das várias tipologias são essenciais para uma recuperação cuidada.
Um conjunto de fenómenos onde se contava também um desejo de apagar da memória todas as marcas de pobreza e atraso fez com que no espaço de 20 anos grande parte dessa arquitectura profundamente enraizada no nosso mundo rural fosse derrubada. Sobretudo na década de oitenta e noventa do século passado, diversas casas rurais foram restauradas com ampliações no sentido de as prepararem às condições de conforto e higiene dos tempos modernos. A antiga casa de pedra era constituída por uma ou duas salas que serviam simultaneamente de sala/cozinha/quarto. Foi uso corrente a ampliação destas casas com um novo segundo piso que derrubava com as características tipológicas da original. Outro fenómeno foi o da chamada "casa de emigrante" onde projectos descontextualizados e incoerentes com a nossa arquitectura implantam-se no espaço rural. No entanto, estas chamadas "casas de emigrante" são de certo modo menos gravosas para o património porque são normalmente construídas de raiz em terreno próprio não destruindo normalmente as velhas casas da aldeia. Assistimos também a situações em que estas habitações rurais mantiverem alguns dos seus traços originais mas foram alvo de ampliações imitando com pequenos tiques o corpo original da casa e instalando a confusão entre o real e o postiço. Janelas e portas alargadas para poder albergar mais um carro são alguns dos exemplos.
Nos anos 90 até a actualidade assistimos a um outro fenómeno onde construímos habitações que nos remetem para as antigas casas solarengas dos séculos XVIII e XIX. São moradias com um desenho baseado em elementos caricaturados dos antigos solares: a varanda colunada, as cantarias nas janelas, os pináculos nas esquinas do telhado, a torre e a escadaria de entrada. Porém , escondem na sua construção as mais modernas tecnologias com a predominância do betão e tijolo. O seu interior satisfaz as exigências de conforto da vida contemporânea com todos os luxos inerentes. Utilizando uma metáfora de gosto automobilístico podemos assumir que os proprietários pretendem um Chevrolet de 1937 com motor Ferrari de 2007, ar condicionado e airbag.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Escarpa






Passados três anos da conclusão da A27 (Viana do Castelo-Ponte da Barca), o impacto desta grande "cicatriz" não foi minimizado. Causando fortes danos visuais na envolvente verde da vila, torna-se urgente traçar estratégias que suavizem esta escarpa.

quinta-feira, 27 de março de 2008

casa rural




Apenas recentemente reparei nesta antiga casa de lavoura no lugar de S.Gonçalo em Arcozelo ,bem perto do Festival de Jardins. É um belíssimo exemplar bem conservado no concelho de Ponte de Lima de uma arquitectura rural que nos últimos anos tem sofrido desvirtuações, ampliações ou reformulações, e que nem sempre souberam entender a sua tipologia original. Esta casa assume-se como uma construção de pedra formalmente concentrada num único corpo conferindo-lhe uma aparência monolítica. Tradicionalmente, o piso térreo seria dedicado à actividade agrícola (lagar, adega, corte de gado), sendo o primeiro piso inteiramente dedicado à habitação propriamente dita. De realçar a generosa varanda constituída por finas colunas de pedra olhando a vila.

domingo, 23 de março de 2008

Intervenção





A Igreja Paróquial de São Salvador de Figueiredo em Braga, recuperada e ampliada pelo arquitecto Paulo Providência, surge como um óptimo exemplo de como é possível valorizar o património sem desvirtuar o existente. Através do entendimento das premissas estruturais da construção existente, o novo corpo adossado insere-se equilibradamente nas linhas gerais da igreja assumindo claramente a sua contemporaneidade. Não pretendendo copiar "um modo de fazer à antiga" falseando inevitavelmente elementos originais, preserva a integridade da construção original. Cito um excerto da memória descritiva do projecto:


O projecto prevê a ampliação da Igreja de duas naves para três, repondo simetria. O programa da nova nave é acentuado por um absidíolo tronco-cónico que alberga a pia baptismal, e que se adiciona ao perfil do conjunto.

As novas coberturas das naves principal e colateral esquerda levam tectos de madeira abobadados, realizados através de cimbres que se cruzam com as asnas. O tecto da nova nave, realizado também em madeira, articula-se com as paredes em betão branco através de uma cornija em alabastro que permite manter uma ténue iluminação do interior. Pelo exterior mantém-se uma continuidade do betão branco e do alabastro.

O arranjo da envolvente, consolidando o adro de granito e integrando a escada, reforça as estruturas espaciais definidas pela fachada da igreja e pela casa e muro vizinhos.

fonte: Habitar Portugal 2003/2005
fotos: Fernando Guerra / FG+SG