quinta-feira, 24 de julho de 2008

O prédio mais estreito



foto: José Marinho (cerca de 1925)


A sina deste prédio recorda-me o drama do prédio mais estreito da Europa localizado em Lisboa e que, com o seu 1,60m entre paredes, não conseguiu escapar à sentença de demolição. Situado no quarteirão entre a Rua do Rosário e o Largo da Feira, este imóvel será o mais estreito proporcionalmente à sua altura dentro do perímetro do centro histórico. Esta singularidade era originalmente mais acentuada até à criação do Largo da Feira que, por volta de 1930, veio soterrar o piso térreo a todos os prédios voltados ao rio. Perdeu-se assim um dos acontecimentos urbanísticos mais interessantes da vila com um jogo de circulações desniveladas em que a ponte medieval ligava directamente ao Largo de Camões e paralelamente a este, o actual Passeio 25 de Abril processava-se sob a ponte medieval fazendo uma transição mais equilibrada para a Avenida de S. João. Uma forma mais inteligente de aproveitamento das potencialidades dos arcos da ponte; actualmente úteis simplesmente ao sombreamento de automóveis.

Tipologicamente este tipo de prédio de planta estreita, alongada e com vãos doseados constituem interessantes casos de estudo na forma como é resolvido o programa da habitação de carácter tão compacto e "ginasticado". Actualmente encontra-se em ruína.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

capela

Janela


após restauro

anterior ao restauro (reconstituição)


Este modesto prédio situado na Rua das Neves incluído no conjunto de protecção da Zona das Pereiras em Ponte de Lima foi alvo de uma recente intervenção que lhe minimizou certas características. Como é referido na obra "Ponte de Lima- Uma vila histórica no Minho" coordenado pelo Prof. Doutor Carlos Brochado de Almeida, este prédio tinha a singularidade de ter "reciclado" uma janela dupla de feição gótica, muito provavelmente de origem medieval, num aproveitamento de uma outra moradia ou igreja. O restauro optou por rebocar na totalidade as suas paredes exteriores, sobretudo a parede da janela gótica que era formada com pedra bem aparelhada (da qual não consegui obter uma foto antiga). A janela gótica sofreu um duro golpe quando adicionaram um beiral em pedra que escondeu os seus arcos quebrados. Procedimentos que nos relembram a urgência de uma protecção mais eficaz e prioritária para uma zona cada vez mais esquecida da vila.

domingo, 6 de julho de 2008

Maluda




A certa altura descobri esta serigrafia exposta numa feira de usados em Coimbra. Rapidamente reconheci Ponte de Lima nesta panorâmica. Assinado pela pintora Maluda (1934-1999), imaginei que pudesse pertencer a uma série dedicada a vilas e cidades portuguesas. No site dedicado à sua vida e obra podemos verificar as características desta serigrafia que foi executada em 1978. Pertence à série "Paisagens 1976-1980"

Sobre Maluda:

Os quadros que pintava eram baseados principalmente nas cidades , nomeadamente na pintura de paisagens urbanas, janelas e vários outros elementos arquitectónicos. A notoriedade das suas obras pictóricas aparentemente mais simples (algumas utilizadas em selos oficiais por encomenda dos Correios portugueses), ao mesmo tempo que a promovia a uma das mais populares pintoras portuguesas das últimas décadas do século XX artístico português, também teve o efeito negativo de encobrir uma vasta obra de criação gráfica mais complexa.

Na sua carreira, Maluda efectuou 24 exposições individuais e está representada em vários museus, entre os quais os da Fundação Calouste Gulbenkian e do Centro Cultural de Belém mas também em várias colecções particulares em Portugal e noutros países.

fonte: wikipedia

sábado, 28 de junho de 2008

Creche na cidade de Prato-Itália






A Câmara Municipal de Prato (próximo da cidade de Florença) lançou um concurso público aberto a arquitectos profissionalmente qualificados de países da Comunidade Europeia que visava escolher dois projectos preliminares para duas creches a localizar em duas zonas distintas da cidade (Ponzano e Galcetello). Foram recepcionados 212 propostas, 136 para a zona de Galcetello e 76 para a zona de Ponzano. O júri foi presidido pelo arquitecto Herman Hertzberger. André Rocha e António Ildefonso alcançaram o terceiro prémio para o terreno em Ponzano.


links:
http://www.comune.prato.it/gocivic/?act=f&fid=2342
http://www.archiportale.com/News/schedanews.asp?idDoc=12089&IDCAT=37

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Caos



"ausência de alinhamentos; fraca inserção de tecido construído na encosta verde destruindo irreversivelmente a mesma; tratamento do espaço público cumprindo apenas a legislação urbana; inexistência de uma coerência formal e conceptual entre os vários empreendimentos.."

domingo, 22 de junho de 2008

Fundação Iberê Camargo






Foi recentemente inaugurada a Fundação Iberê Camargo em Porto Alegre no Brasil do arquitecto português Álvaro Siza. É sem dúvida uma obra de referência na arquitectura contemporânea de um arquitecto que soube reinventar-se dentro de uma carreira e uma "doutrina" muito própria e que conta já meio século. É o primeiro edifício do arquitecto a ser construído em território brasileiro e tem como finalidade albergar obras do pintor gaúcho Iberê Camargo. Ainda em construção recebeu o prémio "Leão de Ouro" na Bienal de Veneza de 2002. Obra que redesenha a encosta verde através de um jogo formal que remete para uma escola brasileira de arquitectura alicerçada em nomes como Oscar Niemeyer ou Lina Bo Bardi. A obra está concluída e apesar de marcar uma nova e estimulante etapa na obra de Siza não deixa de ser facilmente identificável.

fotos: Fernando Guerra
www.ultimasreportagens.com

sábado, 14 de junho de 2008

Café





Ao vasculhar fotos de família encontrei esta lindíssima foto do princípio da década de 70 retratando a rua do Postigo com o extinto Café Guerra como remate. Contraponho uma foto actual. Para além das evidentes mudanças em todo o ambiente social, de uma certa vida em sociedade que fervilhava no seio do centro histórico, procurarei analisar algumas transformações urbanísticas.

A primeira situação refere-se à forma publicitária. Era vulgar, em meados do século passado, publicitar os estabelecimentos através da pintura no próprio reboco através de um lettering ao gosto da época (tal como acontece com o Restaurante Catrina no Passeio 25 de Abril). Assistimos na última década a alguma indiferença em relação ao "apagar” desta memória. Anteriormente a esta última remodelação, em meados dos anos 90, já o lettering havia sido coberto de tinta para passar a chamar-se “Café Snack-Bar Ideal” através de um anúncio luminoso procurando esconder qualquer memória que remetesse para uma tradição de tasca popular. Desta forma elogio a forma como aconteceu a remodelação do prédio da antiga “Casa Pimenta” no Largo da Matriz que conservou o lettering original apesar da permanência de uma outra actividade.

O outro aspecto que ressalta é a utilização de um diferente sistema de caixilharia e adição de guarda de ferro, através de portadas duplas de vidro único e não o sistema de guilhotina desvirtuando o desenho da fachada. Isto não seria gravoso se a Rua da Matriz e Rua do Postigo não fossem tão fortemente caracterizadas pela unidade no desenho varandas e no desenho de janelas em guilhotina em pequenas quadrículas de vidro.

domingo, 8 de junho de 2008

Terceiros


Convento e Museu dos Terceiros - Princípio da década de 70 do séc.XX

domingo, 1 de junho de 2008

Santo Ovídio




O miradouro de Santo Ovídio, onde podemos observar em plenitude o concelho de Ponte de Lima a perder-se no horizonte continua, apesar dos esforços de requalificação, com a criação de um parque de merendas e melhores acessos, aquém das suas potencialidades. Este miradouro, apesar de ter características diferentes do miradouro do Monte da Madalena pela escala, vegetação, rudeza e topografia mais acidentada, é daqui que podemos, em minha opinião, obter a melhor panorâmica.
Ao longo da sua história nunca recebeu o mesmo tratamento depositado no Monte da Madalena. Foi utilizado como base de antenas várias e onde nem a capela escapa. As condições para a uma subida confortável estão criadas assim como a boa sinalização de que goza (na confluência de vias de acesso à vila). Contendo vários motivos de interesse patrimonial e imaterial como a antiquíssima capela, castros, sepulturas, as festas anuais e obviamente a vista, talvez esteja na altura de Arcozelo apostar num parque-miradouro que possa retirar o seu verdadeiro potencial. Como é difícil fixar o visitante apenas através das vistas, torna-se essencial a criação de condições através da oferta de um pequeno equipamento (bar/restaurante panorâmico, etc.), tratamento do espaço exterior enquadrando o núcleo da capela de forma mais equilibrada e sobretudo a deslocalização ou suavização do impacto das antenas.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Archipel




Archipel é uma empresa belga que se dedica à divulgação de arquitectura mundial através da organização de viagens guiadas e a publicação de boletins periódicos. Há cerca de dois meses fui contactado no sentido de poder fornecer mais informações sobre e existência de arquitectura moderna no concelho. Ponte de Lima estava inserida numa visita a realizar entre Espanha e Portugal. O album fotográfico resultante desta excursão pode ser visto aqui. É uma prova da importância de Ponte de Lima na rota na arquitectura moderna.

domingo, 18 de maio de 2008

Casa entre-muros


1.pequeno nicho religioso
2.búzios pintados de azul incustrados na parede
3.cruz desenhada com pequenos mosaicos sanitários


Esta modesta casa situada próxima da Capela das Pereiras num estreito caminho entre muros limites da Quinta da Casa de Aurora é o exemplo da criatividade a baixos custos e dedicação do seu último morador. Sendo obviamente discutível o seu gosto não passa indiferente a quem por ela passa. Hoje esta pequena moradia que se confunde com o próprio muro não tem a manutenção impressa pelo proprietário entretanto falecido, no entanto aqui fica registado o seu empenho.

O grande licenciador

Não resisto em publicar o excelente artigo que Daniel Carrapa publicou no seu blog "A Barriga de um Arquitecto" sobre a realidade do licenciamento de projectos nas nossas autarquias.

O grande licenciador

Em resultado do enquadramento legal que envolve a prática da arquitectura em Portugal discute-se muito quem pode afinal fazer arquitectura?
O tema é extenso e por certo relevante. Mas este debate não se faz acompanhar de um outro que talvez valesse a pena começar a dramatizar: quem licencia essa arquitectura? E como?

As Câmaras Municipais têm a seu cargo o exercício do licenciamento de projectos de arquitectura. Assim, os trabalhos de arquitectura promovidos pelos cidadãos são sujeitos ao escrutínio estatal, com vista a apreciar se estão em conformidade com as regras urbanísticas e edificatórias em vigor.
O que isto significa é que o acto do licenciamento desempenha uma função jurídica. A autoridade conferida aos organismos licenciadores do Estado resulta de se suportar em regras que estão devidamente inscritas na legislação e publicadas enquanto tal. Caso contrário, estaríamos na presença de um acto discricionário, ao sabor do entendimento pessoal e subjectivo de cada técnico ou entidade que exerce essa função.

Um dos graves problemas – diria mesmo dramas – de produzir arquitectura em Portugal resulta da fraca cultura institucional das Câmaras Municipais e demais organismos do Estado sobre o significado do serviço público que deviam exercer. A falta de rigor jurídico, o incumprimento de prazos legais de tramitação processual, a falta de objectividade em relação ao que é essencial e acessório no que respeita aos interesses públicos e privados em presença, resultam num verdadeiro atentado à actividade económica e ao espaço de liberdade individual dos cidadãos. Resultado dessa cultura institucional débil, o cidadão acaba por ser confrontado com pareceres técnicos que misturam factos jurídicos com asserções de dimensão completamente pessoal e subjectiva, do entendimento do técnico individual ou do colectivo institucional que exerce a autoridade de licenciamento.

Devia reflectir-se seriamente sobre o que está aqui em causa. Já será negativo que em certas instituições se cultive um culto de rigor que é, em boa verdade, a mais cega e estrita interpretação possível da legislação. Mas quando este exercício recai para o terreno da completa indistinção entre legal e opinativo, entre o objectivo e o subjectivo, as consequências tornam-se ainda mais graves. Licenciar torna-se assim o mais discricionário exercício de autoridade à mercê dos seus técnicos e dos seus caprichos. Quando o seu zelo não se faz acompanhar de cultura arquitectónica ou saber técnico (histórico, patrimonial ou qualquer outro), os cidadãos vêm-se sujeitos às mais irrelevantes asserções e imposições sobre beirados, alisares, cores locais e essa anedota que dá pelo nome de traça original.

É muito importante que se compreenda de forma inequívoca que a autoridade dos agentes do Estado resulta da inscrição das suas disposições em suporte legal. Quando não estão em presença valores devidamente identificados e regulamentados, a sua actuação casuística e caprichosa faz resvalar essa autoridade para um exercício ilegítimo, sem transparência e, mais grave ainda, sem validade legal. Uma situação que promotores musculados poderão rebater facilmente com suporte jurídico, mas a que cidadãos e profissionais, por desconhecimento ou receio de retaliação, se acabam muitas vezes por submeter.

A reflexão importante que deveria fazer-se em torno do que serão boas práticas de licenciamento será inútil se realizada com mero intuito de culpabilização dos seus agentes. É certo que o Estado se debate com problemas de qualificação técnica e humana, de organização, metodologias e meios. E que a nebulosa cacofónica de legislação do sector torna o trabalho de licenciamento um pesadelo para os técnicos directamente envolvidos. O que está em causa, verdadeiramente, é a urgência em inscrever no Estado uma doutrina de qualidade. A instituição de uma cultura de serviço público e a compreensão de que as más práticas têm como consequência um pesado prejuízo colectivo e o desrespeito pelos direitos individuais dos cidadãos. A cegueira em afrontar este problema terá como resultados, de simplex em simplex, a perda de autoridade dos agentes estatais e, por fim, a desregulamentação total.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Entrada da vila


Entrada na vila no principio dos anos 70 com o Palacete Villa Moraes em pano de fundo. Interessante a percepção de como o já raro património de sinalização de localidades pertencente às Estradas Nacionais de Portugal era esteticamente mais interessante e sobretudo mais claro do que a actual confusão sinalizadora à entrada das nossas urbes.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Ruína


Este interessante prédio na Rua do Postigo, provavelmente o mais antigo da rua como denuncia o rés-do-chão em pedra com um alinhamento de rua anterior ao actual e o balcão dos pisos superiores avançando em madeira sobre o passeio, começa a dar sinais de ruína eminente. Esperemos que um dos poucos exemplares de arquitectura em madeira existentes no centro histórico não desapareça irremediavelmente.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Reparo - Cemitério



Quando escrevi o artigo chamado "a dessacralização do cemitério" chamaram-me a atenção para um pormenor que por descuido não mencionei. O muro do cemitério, onde hoje está desenhada uma linha amarela de proibição de estacionamento, era pontuada por cruzeiros provenientes do calvário demolido entre o Largo da Lapa e o início da Rua do Pinheiro. Aqui fica questão da mesma forma que me foi formulada: "Onde param os cruzeiros do cemitério?"

Porta


Porta lateral da igreja românica de S.João da Ribeira

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Integração

fotos acima: José Manuel Rodrigues




Muito se tem discutido sobre a inserção equilibrada de novas arquitecturas em tecidos urbanos consolidados. É um dos temas mais caros à arquitectura. Uns optam pela integração pela aposta na diferença, assumindo claramente essa modernidade (é o caso do posto de Turismo ou do Mercado Municipal em Ponte de Lima); outros apostam pela integração através de uma leitura cuidada dos vários elementos comuns que se repetem uniformemente pelo espaço urbano. É o caso desta intervenção em Lisboa entre a Baixa e o Chiado do arquitecto Álvaro Siza Vieira. O vazio existente no local foi "preenchido" com uma solução que dialoga com o ambiente arquitectónico envolvente de forma silenciosa mas que em simultâneo não deixa de explorar uma certa contemporaneidade. Estas foram as raízes geradoras do projecto.