quarta-feira, 10 de junho de 2009
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Arquitectura desaparecida em Ponte de Lima (IV)
Cito um texto publicado na revista Arquivo de Ponte de Lima de 1982 por João Gomes d´Abreu sobre a demolição da Casa dos Pacheco Pinto:
"A fotografia que se apresenta na primeira posição (...) constitui o único testemunho iconográfico que conhecemos da velha casa dos Pacheco Pinto, à Fonte da Vila. Foi conseguida à custa da ampliação de um bilhete postal ilustrado, por se terem gorado todas as diligências para obter uma fotografia original que enquadrasse aquela casa. Ninguém tinha, ninguém sabia quem pudesse ter. Daí, a falta de qualidade da fotogravura. A casa dos Pacheco Pinto era, sem dúvida, um dos imóveis mais expressivos do velho casco urbano. De raiz quinhentista bem evidente (cantarias, registos epigráficos em gótico tardio) era, contudo, o séc XVII a época que mais transparecia (volumetria, proporção de cheios e vazios, tipo de fenestração, cornija e gárgulas, pedra de armas, o cunho popular) passem, embora, as intervenções sofridas posteriormente, em particular os tectos barrocos revelados em caixotões de madeira policromada. Hoje não tenho dúvidas em afirmar que essa destruição constitui um dos golpes mais violentos vibrados nos últimos anos no acervo patrimonial da vila. Em nada se desemerece se a compararmos se a compararmos com a brutal demolição da casa do Patim, ou da dos Achiolis (ao Arrabalde), ou até do Hospital Velho da Misericórdia. E se estas desaparecem numa época menos que insensível à noção de património arquitectónico e à necessidade da sua conservação, aquela foi desfeita quando esta noção constituia já uma preocupação dominate de qualquer país civilizado (e Portugal era-o!). E, pior ainda, foi permitida a sua substituição por um edifício sem qualidade, concebido sem preocupação de escala e que alterou profundamente a hierarquia da estrutura urbana existente. Os valores admitidos dos indíces volumétricos e de ocupação do solo, conferem-lhe uma importância que o ultrapassa e forçam a uma situação de subalternidade os edifícios vizinhos, em particular a velha câmara e o pelourinho que perdem a promeninência, apesar da dimensão do espaço livre envolvente. Em 1970, perante a iminência da demolição, uma ilustre Senhora que, há 83 anos vinha assistindo à transfiguração constante da sua terra, escreveu, apreensiva, ao Director Geral dos Serviços de Urbanização, solicitando urgente intervenção. A resposta não se fez tardar. A 5 de Janeiro de 1971 a Direcção de Urbanização do Distrito de Viana do Castelo enviava o seguinte ofício (Ofº 19 - Proc.º U/7):
Exma. Senhora D. Maria Rita Magalhães de Abreu Coutinho
Casa do Chafariz
PONTE DE LIMA
[...]
Relativamente à carta de V. Ex.ª dirigida ao Exmo. Engenheiro Director-Geral destes Serviços, informa-se que superiormente foi determinado esclarecer V. Ex.ª do seguinte:
-Reconstrução de um prédio particular-
Depois de termos obtido pareceres de técnicos sobre o interesse da casa a demolir, referida na carta de V. Ex.ª, verificou-se que a mesma não tem qualquer interesse arquitectónico, e que se encontra em mau estado, ameaçando ruína. O novo edifício pode ser construído com uma cércea mais elevada, ou seja, três pisos, que se harmonize com os contíguos, e a sua arquitectura poderá enquadrar-se devidamente no ambiente do local.
[...]
Este ofício, que não se comenta, deve ficar registado neste local. Assim, fará também parte do património histórico de Ponte de Lima."
João gomes d´Abreu (engenheiro civil-urbanista)
segunda-feira, 25 de maio de 2009
sexta-feira, 22 de maio de 2009
A arte de fazer património em Ponte de Lima
É de um puro provincianismo este tipo de obras num espaço que deveria ser restituído ao seu carácter natural de areal. Ponte de Lima desvirtua desta forma um dos seus elementos naturais mais marcantes e do qual deveria orgulhar-se. Há 20 anos qualquer limiano ridicularizaria qualquer tipo de intervenção neste espaço lembrando que a subida do rio encarregar-se-ia de fazer a sua justiça reclamando o seu território. Hoje a autarquia já não pensa no areal como um areal mas sim como um espaço a servir como o estacionamento da vila por excelência argumentando que a saída do parque automóvel deste espaço seria a "machadada" final no comércio. Na realidade a "machada" foi dada recentemente ao eliminar-se o estacionamento nas artérias do centro histórico. Quem vai à Figueira da Foz ou Matosinhos e passeia na marginal observando ao seu lado o vazio que aquele imenso areal provoca, olha para ele como uma oportunidade de lazer e enquadramento paisagístico. Ponte de Lima era detentora de uma característica única em Portugal senão mesmo a nível europeu: um imenso areal fluvial que resistiu à vontade de nele pousar qualquer elemento construtivo. Os concursos de ideias ficaram de lado, urbanistas, arquitectos e designers já não têm voz nesta vila que faz obras sem consulta popular. No último ano tudo é avisado com uma semana de antecedência ou então somos confrontados com as obras in loco. Projectos globalizadores não existem e tudo é feito pontualmente e com um gosto bastante discutivel. É o caso desta obra que considero dos maiores atentados à paisagem do centro histórico. Um monumento que faz lembrar as obras históricas do regime do Estado Novo, uma espécie de Padrão dos Descobrimentos à beira lima plantado. É a arte de "fazer património" em Ponte de Lima. Primeiro, um pelourinho que se implanta discutivelmente entre as rampas do areal, agora uma rampa que se prolonga em jeito de avenida e a seguir uns cruzamentos construídos em paralelo a cruzarem o areal. Devem seguir-se umas plantações de árvores e quem sabe uns candeeiros, umas bicas de água para a feira, uns canteiros de flores labirínticos et voilá, os limianos acabaram de perder a memória do velho areal que permaneceu virgem durante séculos. Um espaço ecológico em pleno centro histórico que não merecia menor protecção do que a que foi dada às Lagoas. A batalha por devolver o areal aos limianos está assim irremediavelmente perdida por incúria e caprichos de autarcas que em poucos meses foram iluminados com dotes e competências de urbanistas.
Para terminar, lanço um palpite para a nova estátua de bronze a implantar no centro histórico...um diabo a cravar as unhas numa pedra.
terça-feira, 12 de maio de 2009
Ponte de Lima 1963 (III)
Sequência de vídeo retirada do documentário da RTP sobre Ponte de Lima inserida na série "Terras de Portugal" de 1963
Direcção e realização do jornalista limiano Reinaldo Varela.
Música: Max Richter - Written in the sky
quinta-feira, 7 de maio de 2009
segunda-feira, 4 de maio de 2009
S. Cristovão de Freixo


A Ermida de São Cristovão em S.Julião de Freixo situada no alto do monte com o mesmo nome do santo merece visita obrigatória. É uma pequena ermida do séc. XVII embora a sua origem remonte para séculos anteriores. Formalmente é bastante simples, com parcas aberturas mas sobressaindo um volumoso friso granítico que remata a sua forma cúbica. Tal como outras capelas características de montes ermos como Santo Ovídio e São Lourenço da Armada, são construções que assumem um ar quase fortificado e muito medievalizado protegendo-se contra o vandalismo e as duras condições atmosféricas a que estão sujeitas. Existem relatos de pastores de S. Lourenço que no séc. XIX arrombavam as portas da ermida para aí colocarem os seus animais à sombra. São ermidas que abrem as suas portas apenas na festa anual dedicada ao santo. Na Ermida de São Cristovão de Freixo os problemas de segurança foram resolvidos de uma forma curiosa: a construção de uma cerca murada em jeito de muralha circular forma uma cintura de protecção à ermida e que corre muito próxima das suas paredes. Dois postigos permitem o acesso através desta cerca murada e que criam uma forte expectativa na aproximação à capela, delimitando claramente o adro religioso do exterior denso de arvoredo. Uma relíquia no concelho.
fotos: Teotónio Pereira, 2007, http://www.geocaching.com/seek/cache_details.aspx?wp=GC14KMR
quinta-feira, 30 de abril de 2009
"Musica Profana"

"Musica Profana" é um projecto musical de Ponte de Lima em formação por Daniel Moreira e Catarina Lima e que se apoia fortemente no imaginário ancestral das lendas populares ou no período dos Descobrimentos e todo o misticismo que a poesia fomentou. Deixo uma breve descrição dos próprios:
O projecto Música Profana, oriundo de Ponte de Lima, nasce do desejo do seu fundador Daniel Moreira em aliar o Metal a elementos da música Tradicional e Folk. O peso caracteristico do Metal é cortado por sons de concertinas e gaitas de foles, assim como pela voz feminina. A baixa afinação proporciona uma base instrumental sólida que contrasta com as melodias e instrumentos agudos. Inteiramente cantadas em português por Catarina Lima, as canções baseiam-se em Mitos, Lendas e feitos históricos do povo português. O tema "Mostrengo" adaptado do poema de Fernando Pessoa (Mensagem) refere-se ao encontro mitológico que os nossos descobridores tiveram com Adamastor, já o "Mensageiro da Névoa" é inspirado no mito de D. Sebastião. "Pieira dos Lobos" é uma lenda da zona de Ponte de Lima e o "Canto do Poeta" (tema acústico) não tem qualquer base mitológica, podendo-se considerar uma homenagem à poesia.
domingo, 26 de abril de 2009
Madalena Martins
A designer Madalena Martins será porventura das artistas limianas mais subestimadas. O período de maior fulgor da última década autárquica confunde-se com as inúmeras contribuições da Madalena na criação de uma iconografia própria. A Madalena Martins e o seu atelier criaram um traço muito particular e que surge de uma clara investigação na iconografia popular e muito sedimentada em raízes minhotas, desde os trajes folclóricos, os lenços, a joalharia ou ornamentação festiva. Este peso da tradição é condensado em formas contemporâneas e vivas. O atelier teve um importante papel na renovação imagética das Feiras Novas e todo o franchising sendo hoje um marca facilmente reconhecível fora de Ponte de Lima. Todo o grafismo desenvolvido pelo atelier tem perdurado desde então. Apesar de hoje ser algo bem assimilado pela população, esta renovação não aconteceu sem uma recepção pública com opiniões contraditórias. No entanto, a mascote das Feiras Novas é hoje um símbolo incontornável.
Das contribuições para a Autarquia posso citar como exemplos, o grafismo do autocarro oficial, o boletim municipal e toda a iconografia da Área Protegida das Lagoas.
Mas o traço de Madalena Martins e o seu atelier "Zain" ultrapassa a área geográfica de Ponte de Lima, sendo o seu trabalho facilmente reconhecido na cidade do Porto ou Lisboa. Deixo como exemplo o Cartaz de S.joão do Porto de 2005.
quinta-feira, 23 de abril de 2009
"Lagoa"
A Câmara Municipal de Ponte de Lima colocará em funcionamento no próximo sábado a rede de bicicletas urbanas destinadas a turistas e munícipes. Os pontos de paragem localizados na quinta de Pentieiros, Centro de Interpretação Ambiental das Lagoas de S.Pedro de Arcos/Bertiandos e no Mercado Municipal da vila. É uma óptima iniciativa que vem dar seguimento a uma política ambiental e de salvaguarda da paisagem. Estes pontos de paragem fazem crer à partida que o percurso incentiva mais um conceito de passeio turístico junto às margens do que propriamente uma ideia de uso quotidiano dentro dos limites urbanos e maioritariamente usado pelos limianos. Já defendi neste blog a "contaminação" das ecovias pelos eixos urbanos estruturantes da vila como a Avenida António Feijó, Via Foral D.Teresa e até um percurso pelo Monte da Madalena. Desta forma é de salutar a operação que está sendo levada a cabo na Avenida António Feijó dotando-a com ciclovias devidamente separadas dos automóveis. Estas ciclovias juntar-se-ão à recente intervenção ribeirinha e a partir daqui directamente ligadas às ecovias. No entanto, se na Avenida António Feijó o uso de tinta azul florescente serve bem os propósitos, o mesmo não acontece na Avenida dos Plátanos. É com indignação que vejo o mesmo tratamento sobreposto ao pavimento longitudinal desta alameda. Todo o enquadramento paisagistico é afectado de forma gravosa por este ruído no pavimento. Se por um lado a Avenida dos Plátanos é por si só uma larga "ciclovia" desprovida de trânsito automóvel e perfeitamente apta ao convivio saudável entre peões e bicicletas sem necessidade de uma marcação tão clara de separação, a existir deveria ter sido devidamente desenhada com materiais que se integrassem de forma saudável no conjunto. As ciclovias em centros históricos exigem um tratamento mais sensível. Será que veremos estas linhas a prolongar-se pela recente intervenção no Passeio e Largo de Camões? Porque não previu esta intervenção as ciclovias no seu desenho?
domingo, 19 de abril de 2009
Ponte de Lima 1963 (II)
Um outro areal que começa a apagar-se da memória colectiva...
Sequência de vídeo retirada do documentário da RTP sobre Ponte de Lima inserida na série "Terras de Portugal" de 1963.
Direcção e realização do jornalista limiano Reinaldo Varela.
Música: Max Richter - H in New England
quinta-feira, 16 de abril de 2009
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Alameda S.joão
A Câmara Municipal de Ponte de Lima anunciou a revitalização da Alameda de S. João. Uma medida que já se assumia mais urgente do que a actual intervenção no Passeio 25 de Abril. A Alameda de S.João sempre foi a "irmã" pobre da Avenida dos Plátanos. A sua actual vocação como acesso obrigatório à Expolima acentuou a sua degradação mas também retirou esta alameda da sua condição periférica e sombria. Aproveitem-se as sinergias das correntes obras de repavimentação do passeio, melhorem o acesso do Largo da Feira a esta alameda, novos candeeiros e recuperem a linha de arvoredo bastante degradada. Julgo que existe alguma beleza a ser redescoberta.
terça-feira, 7 de abril de 2009
Granihouse


A Graniminho, uma empresa sediada em Ponte de Lima, constrói casas modulares amovíveis com cerca de 48m2. rondam os 60 mil euros e não necessitam alicerces. Desta forma ficam normalmente isentas de licenciamento camarário. A casa tipo é um T2 com 24 toneladas de peso.
É um conceito que pretende alargar-se a outros programas arquitectónicos como apoio de piscina, abrigo de montanha, atelier ou um simples anexo de jardim.
"São casas modulares, que normalmente não pagam impostos, embora esta não seja uma questão linear, já que há diferentes interpretações de câmara municipal para câmara municipal", disse, à Lusa, José de Brito, um dos administradores da "Graniminho". "Em três meses, a casa fica pronta a habitar, num conceito chave na mão. Nós levamos a casa ao terreno do cliente e instalámo-la, ou em cima de uma pequena laje de betão ou em pilares de granito. Se um dia, por acaso, o cliente decidir mudar de ares, é só contactar-nos que nós trataremos de lhe levar a casa para a sua nova morada", disse ainda José de Brito.
É uma ideia de forte expansão futura no mercado e uma prova do empreendedorismo e criatividade de alguns empresários limianos que não cedem ao cinzentismo provocado pela crise actual e uma excelente forma de revitalizar a industria de granito no concelho.
Graniminho
RTP
Expresso
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Ponte de Lima 1963
Sequência de vídeo retirada do documentário da RTP sobre Ponte de Lima inserida na série "Terras de Portugal" de 1963.
Direcção e realização do jornalista limiano Reinaldo Varela.
Música: Philip Glass - metamorphosis two
domingo, 29 de março de 2009
quinta-feira, 19 de março de 2009


Certos elementos naturais elevam-se quase ao estatuto de património quando estes começam a figurar de forma tão marcante na memória visual do espectador. É o caso desta palmeira (não sei se será esta a verdadeira designação cientifica deste exemplar) existente na recém restaurada Casa do Arnado. Um dos postais de Ponte de Lima é pontuado inevitavelmente por esta árvore de porte elegante e altivo. Embora tenhamos tendência a valorizar a imagética do património construído, julgo que o desaparecimento desta "coluna vegetal" seria já uma perda digna de referência.
quarta-feira, 18 de março de 2009
A vila mais antiga
A suspeição da imprensa regional e nacional sobre a legitimidade da afirmação da posse do título de vila mais antiga de Portugal por parte do município de Ponte de Lima tem ganho repercussões graves. Os contornos desta afirmação nunca me foram claros, no entanto assumi que Ponte de Lima seria a vila mais antiga não histórico-cronologicamente mas sim porque as verdadeiras vilas detentoras do título elevaram-se a cidade ganhando automaticamente Ponte de Lima essa categoria. O desinteresse da autarquia na elevação de Ponte de Lima a cidade seria em parte uma estratégia no sentido de não deixar escapar esse título.
Quando os historiadores não chegam a conclusões claras é normal os casos mais prováveis apressarem-se a reclamar o título. Faz lembrar as várias teorias sobre o nascimento de personalidades históricas como Gil Vicente. Na sua probabilidade, cidades como Guimarães adiantam-se a dar o seu nome a uma escola e Barcelos a um clube de Futebol quando provavelmente Gil Vicente não nasceu no Minho mas nas Beiras. O mesmo acontece com Cristovão Colombo sobre a sua nacionalidade portuguesa ,castelhana ou até italiana. Daí terem proliferado as supostas casas-museu em várias localidades.
No caso de Ponte de Lima o assunto parece ser historicamente bem fundamentado visto o município de Soure ter recebido foral em 1111 pelo Conde D.Henrique (14 anos antes de Ponte de Lima) e com a agravante de ainda ser uma vila. É curioso esta vila de Soure não ter reclamado este título quando esta afirmação tornou-se um sobrenome de Ponte de Lima nos últimos anos. Esperemos então pela reposição da verdade.
A moda das autarquias do país quererem assumir a sua identidade com algum titulo como "a capital de algo" generalizou-se nos últimos 15 anos. Santarém-Capital do Gótico, Braga-Cidade Barroca, Coimbra-Capital do Conhecimento, Ponte de Lima-A vila mais Antiga. É verdade que Ponte de Lima não necessitava de cultivar esta falácia ao ponto de acreditarmos nela própria. É embaraçoso para os habitantes e Ponte de Lima tem apostado noutros temas que fariam mais sentido como referência nacional como a aposta na ecologia. Esperemos então que a autarquia não caia no provincianismo de mudar a placa da auto-estrada A3 de "Ponte de Lima- a vila mais antiga" para "Ponte de Lima - A Capital do Arroz de Sarrabulho".
segunda-feira, 2 de março de 2009
Arquitectura desaparecida em Ponte de Lima (III)

O conjunto de 3 prédios demolidos para dar lugar ao edifício da actual Caixa Geral de Depósitos apresentavam-se ligeiramente mais recuados em relação ao Passeio 25 de Abril e Torre de S.Paulo. Isto permitia uma melhor visualização desta torre medieval a partir do Largo de Camões. O conjunto era constituído por um edifício de lote estreito que relacionava-se com ao Largo de Camões e Rua do Postigo. Era um prédio de duas assoalhadas mais o habitual piso recuado construído com materiais mais leves. O seu desenho segue a traça dominante do resto do casario do séc.XIX de janelas de abas e caixilharia em guilhotina. Voltados ao rio dois prédios contribuíam para o desenho da frente ribeirinha da vila. Apesar de conterem o mesma traça arquitectónica com as janelas de cantaria similar e ornamentos de losangos duplos (um desenho pouco comum no resto do casario da época), julgo serem dois prédios distintos por duas razões. Na fotografia da vila em 1858 apenas existe a ala direita do prédio que confronta a Torre de S.Paulo e sem um piso adicionado posteriormente. A outra razão prende-se com o desnível existente entre os dois prédios assumindo a diferença. Ambos continham pouca profundidade. Estavam implantados exactamente sobre a linha da muralha substituindo os cerca de 3,50m desocupados por esta. A fotografia de 1858, apesar de não proporcionar uma leitura muito rigorosa, parece apresentar um convívio da fachada deste prédio com o troço da muralha correspondente à demolida Porta do Postigo e o seu nicho superior. A fachada era complanar à muralha e talvez existisse um acesso desta à muralha através do andar superior (podemos deduzir que a demolição do Arco da Porta do Postigo, tal como o da Porta Nova ainda não era prevista pelas entidades camarárias visto que este prédio foi desenhado incluindo este troço da muralha como condicionante do projecto). Até à sua demolição este conjunto sofreu sucessivas adições de pisos e águas furtadas. Os 3 prédios deram origem ao edifício da Caixa Geral de Depósitos que está inserido num programa nacional que visava cobrir o território com este equipamento por parte do governo do Estado Novo. Eram equipamentos construídos maioritariamente nas praças principais das cidades sob o estilo arquitectónico vulgarmente denominado "Português Suave". Não sendo o edifício da Caixa Geral de Depósitos de Ponte de Lima uma referência marcante deste estilo, esta arquitectura procurava recuperar elementos de uma arquitectura dita tradicional como pilaretes, desenhos de vãos, cantarias e adicionando elementos de revivalismo nacionalista como esferas armilares (presentes nas varandas da CGD), brasões ou caravelas. Era uma arquitectura utilizada em plena era moderna e que por vezes produzia resultados contraditórios no projecto de equipamentos com programas arquitectónicos novos. O edifício da CGD de Ponte de Lima é assim um edifício sólido, algo austero na sua escala e volumetria monolítica em relação ao restante casario e que, ao contrário do anterior conjunto de prédios, não retirava um certo protagonismo à Torre de S. Paulo. Na década de 80 do século passado, o redimensionamento das janelas do piso superior suavizou a sua escala. Porém, este edifício integra-se razoavelmente no ambiente construído do Largo de Camões.
Bibliografia: planta: Ontem-Hoje, O Largo de Camões, 1983 p.316
Ponte de Lima, Uma Vila Histórica no Minho, p.237
Arquivo Família Vieira Lisboa_Casa da Freiria (foto de 1947)
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