segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Além da Ponte




Apesar de pouco digna de menções, esta estreita rua entre a Rua Conde da Barca e o Largo Alexandre Herculano não deixa de surpreender pelas suas inusitadas características. Pouco atravessável, esta rua da qual não consegui apurar a sua toponímia, apresenta várias curiosidades. Um sólido muro denunciando óbvia ancestralidade remata a rua a norte e permite o acesso à rua que corre a uma cota superior. A sua estreiteza comparativamente à altura dos prédios que confrontam esta rua exponenciam a sua verticalidade. O fechamento existente a norte atribuiu um carácter privado, de fortes relações de vizinhança. É um espaço que faz a transição entre uma realidade de concentração urbana existente no centro histórico com a presença mais rural de Arcozelo. No entanto, a relativa modéstia das suas construções apostando em varandas corridas no último piso e a diferença cromática associada às particularidades do espaço público da rua remetem para uma realidade urbana que é mais típica das cidades e vilas do sul de Portugal e Espanha, onde o desenho do casco antigo tem fortes raízes no urbanismo muçulmano.
A sul esta rua desemboca num largo de pequenas dimensões pontuado por um fontanário e ladeado por construções de arquitectura popular e cujo bom gosto das recuperações tem vindo a restituir a dignidade que este espaço merece.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Fontes e Fontanários




Ponte de Lima é rica em fontes e chafarizes espalhados pelo território. No entanto sofrem de dois males. Por um lado a qualidade das águas (mais de metades destas fontes de água estão impróprias para consumo) e por outro lado, a quantidade da água que é jorrada pelas bicas. Veja-se o caso do chafariz do Largo de Camões que parece ter perdido o vigor com que se processa o sentido descendente entre os vários patamares (para não falar da falta de limpeza). O outro caso será o da Fonte da Vila; seria interessante colocar as bicas laterais a funcionar. O efeito seria francamente exponenciado. Para um centro histórico que sofre tanto nos meses de Verão com a falta de humidade, estes pontos de água seriam essenciais para introduzir alguma frescura.


Sobre este assunto: Tempo Cativo

sábado, 29 de agosto de 2009

Arquitectura contemporânea em Ponte de Lima (III)




Restaurante Sto. Ovídio
Traços D´arq - arquitectura


Rua Além-Ponte

Nota

Tenho sido abordado pelo facto de pertencer à Comissão de Juventude da candidatura de Victor Mendes. Sempre assumi-me com uma postura independente em relação a partidos e foi desta forma que aceitei integrar esta comissão de aconselhamento. Nunca me privei de trocar impressões com qualquer elemento pertencente a algum partido da oposição sempre que me foram solicitadas, por acreditar que qualquer proposta que melhore a qualidade de vida em Ponte de Lima não deve ser patenteada por algum partido como se de um trunfo clubístico se tratasse. Todas as intervenções presentes neste blogue foram tratadas como "chamadas de atenção" ao executivo perante orientações com as quais discordo, elucidando o público para outras formas de agir, e sempre que possível apresentar soluções. As intervenções têm sido feitas a título pessoal , daí nunca ter sido um blogue ao serviço partidário. A minha postura tem sido ao serviço de uma Ponte de Lima melhor e aceitei o convite num espírito de aconselhamento perante causas em que acredito dentro da minha área de especialização. Em relação à política seguida por este blogue, devo acrescentar que, não deixarei de exercer o meu dever de cidadania opondo-me a determinadas estratégias seguidas pelo actual executivo camarário (caso do Bar do Arnado, areal, passeio e estatuária) e assim pretendo continuar até sentir legitimidade para tal e a minha consciência assim o ditar. Se me questionam se pertencer à comissão de juventude da candidatura do CDS/PP é compatível com a minha postura muito crítica em relação ao actual executivo, não será certamente incompatível com o desejo de contribuir para um concelho melhor, mesmo que para ter alguma voz tenha de assumir a integração num determinado grupo.

domingo, 23 de agosto de 2009

Arquitectura desaparecida em Ponte de Lima (V)

até 1927

actualmente

O aspecto mais curioso destas imagens será a existência até 1927 de um sólido fontanário acoplado à empena de uma modesta casa que chegou aos nossos dias embora com a sua aparência exterior profundamente reformulada.

Casa na Rua do Mercado

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Mercado do Gado - Arq. Carvalho Araújo

O Mercado de Gado projectado pelo arquitecto José Manuel Carvalho Araújo no programa da RTPN Arquitectarte

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Passeio (I)


É difícil resistir a publicar esta fotografia de meados dos anos 20 do século passado no momento em que o monumento de homenagem ao folclore começa a assentar os seus alicerces em frente do mercado municipal.
Ao observarmos atentamente a fotografia do Passeio 25 de Abril podemos constatar que toda a linha de paredão estava claramente desenhada como uma peça essencial na divisão daquele espaço natural, que é o rio e o areal, do espaço urbano construído que corresponde ao casario da vila. As rampas eram os únicos elementos mediadores destes dois espaços. Para além disto, este talude em pedra enquadrava a panorâmica da vila desde a capela de S. João até o outro extremo rematado pela Capela de Nossa Senhora da Guia. De certa forma apresentava-se como uma "base" onde a vila assentava. Infelizmente, nas últimas décadas foram sendo adicionadas demasiadas peças defronte dessa linha que acabaram por esconder esta característica. Refiro-me às novas linhas de árvores paralelas à avenida de S.João, Pelourinho, espaços verdes, assoreamento e nova estatuária. O próprio micro-clima gerado por estes elementos naturais modificou-se; hoje é um espaço extremamente seco. Reparamos também que todo o passeio ribeirinho era um espaço bucólico, de contemplação do rio, ponte e toda a paisagem envolvente. Como qualquer vila ou cidade da província em pleno séc. XIX, era uma vila melancólica. Se esta característica não deixa saudades no estado de espírito da comunidade, o contrário não se aplica ao primôr com que era desenhado o espaço público nesta época. O "espírito do lugar" é algo difícil de classificar e até de preservar tal é a sua subjectividade. No entanto, podemos concluir que Ponte de Lima, apesar do folclore ter fortes raízes, nunca foi uma vila "folclórica".

terça-feira, 14 de julho de 2009

Conferência

Conferência de Jovens Arquitectos Premiados Internacionalmente

O ciclo de conferências, comissariado por Cristina Veríssimo, realiza-se no âmbito das celebrações do encerramento do 10.º aniversário da Ordem dos Arquitectos e tem lugar no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional, em Lisboa, nos dias 9, 16 e 23 de Julho.


Com esta primeira edição do ciclo pretende-se demonstrar a existência de um crescente interesse e participação dos nossos jovens arquitectos em
concursos e prémios de carácter internacional, cujos resultados têm sido gratificantes para a promoção e divulgação da mais jovem arquitectura portuguesa.

Os arquitectos António Ildefonso e André Rocha apresentarão no dia 23 de Julho às 19h o projecto da creche premiada em Itália.


Links: alinhamento

Traços d´arq


Foi lançado recentemente o site do Atelier Traços d´arq, um jovem gabinete que de forma muito consistente tem trabalhado no sentido de dotar o concelho com uma arquitectura capaz de respeitar a memória do nosso património construído. A arquitectura associada à disciplina de um pensamento sobre o território é um bem cada vez mais necessário em Ponte de Lima.

domingo, 28 de junho de 2009

Ponte de Lima 1963 (IV)






Sequência de vídeo retirada do documentário da RTP sobre Ponte de Lima inserida na série "Terras de Portugal" de 1963
Direcção e realização do jornalista limiano Reinaldo Varela.

Música: Aphex Twin - Avril 14th

Citação

"O areal tem, actualmente e do meu ponto de vista, na forma geral da vila uma função essencial: permitir a entrada de ar e de luz, permitir a respiração, e, dessa forma, suscitar a compreensão de um certo telurismo que justifica muitas das características de Ponte de Lima. Nessa medida, o areal deve ser sempre simples areal, um espaço público que nos permita fruir os elementos naturais, o casario, a ponte, o horizonte, as montanhas e o céu, sem intrusões visuais significativas ou intervenções que nos façam esquecer todo o espaço envolvente. Um areal, assim entendido, valoriza o edificado, dando-lhe monumentalidade. Um areal, assim sem outra função, reconduz Ponte de Lima às suas origens."


José Carlos de Magalhães Loureiro
in Anunciador das Feiras Novas

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Património


Na última semana foi inaugurado o monumento evocativo da Lenda do Rio Lethes- Rio do Esquecimento nas margens do Rio Lima em pleno centro histórico. É uma obra "malfadada" desde os primeiros movimentos de terra no areal que faziam adivinhar a sua inusitada implantação em local historicamente reservado à inconstância das águas. Um grave erro facilmente perceptível neste primeiro passo da obra. O segundo passo materializado na colocação da estatuária fez jus às piores expectativas. O tradicional enquadramento paisagístico da ponte medieval e casario com o seu ar bucólico sofre um duro golpe com este "ruído" naquele imenso vazio do areal. É certo que esta lenda já estava, e muito bem, representada num painel de azulejos em espaço nobre (numa das esquinas do Mercado Municipal), baseado numa bela tapeçaria de Almada Negreiros presente num Hotel de Viana. Desta forma, este novo monumento apenas pretende recalcar e reivindicar a lenda para o actual local. Esta insólita intervenção no areal , pousando uma base de betão para acolher arte figurativa abre um precedente grave neste espaço eminentemente moldado pela natureza justificando acções futuras. Por outro lado, o facto de não estar inserido num plano mais abrangente de requalificação do areal condicionará a longo prazo esta mesma proposta. Em declarações ao Jornal Alto Minho o presidente da autarquia afirmou que este monumento pretende mostrar que Ponte de Lima é também uma vila românica (existiam dúvidas?) e que estas imagens "coloridas" irão espalhar Ponte de Lima pelo mundo (é este o postal que queremos transmitir?). As intervenções sem o devido aconselhamento e baseadas no gosto popular correm o risco de infantilizar uma ideia nobre e sobretudo não terem a capacidade de resistir ao teste do tempo. O ambicioso Plano de Valorização das Margens do Lima; um projecto meritório que marcou o início da presidência de Daniel Campelo na Câmara Municipal e que de uma forma correcta e saudável colocou os limianos a discutir uma orientação a longo prazo para o centro histórico parece pertencer ao passado. A realidade é que muito do proposto nesse plano foi construído e Ponte de Lima beneficiou de intervenções desapaixonadas mas simultaneamente sensíveis à paisagem e estrutura urbana da vila. Refiro-me a obras como o centro náutico, pousada de juventude, Festival de Jardins, mercado do gado e mercado municipal assim como o novo posto de turismo que, embora sub-aproveitados e controversos, foram amplamente divulgados fora do país em publicações da especialidade que potenciaram um novo turismo apreciador de arquitectura contemporânea e de novas abordagens ao património em centros históricos. Atitude corajosa por parte do município que não enveredou pelo caminho mais cómodo da mediocridade. No entanto, as últimas intervenções no espaço urbano, apesar de rápidas, denotam claramente a pobreza de discussão pública e sobretudo um esquecimento de saberes disciplinares de urbanistas, designers, arquitectos e escultores devidamente qualificados e que em parceria deveriam ser os actores de um palco sensível como é o centro histórico de Ponte de Lima. A dura realidade é que o turista culto sabe distinguir o património real do património postiço.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Arquitectura desaparecida em Ponte de Lima (IV)

até 1972

actualmente

Cito um texto publicado na revista Arquivo de Ponte de Lima de 1982 por João Gomes d´Abreu sobre a demolição da Casa dos Pacheco Pinto:


"A fotografia que se apresenta na primeira posição (...) constitui o único testemunho iconográfico que conhecemos da velha casa dos Pacheco Pinto, à Fonte da Vila. Foi conseguida à custa da ampliação de um bilhete postal ilustrado, por se terem gorado todas as diligências para obter uma fotografia original que enquadrasse aquela casa. Ninguém tinha, ninguém sabia quem pudesse ter. Daí, a falta de qualidade da fotogravura.
A casa dos Pacheco Pinto era, sem dúvida, um dos imóveis mais expressivos do velho casco urbano. De raiz quinhentista bem evidente (cantarias, registos epigráficos em gótico tardio) era, contudo, o séc XVII a época que mais transparecia (volumetria, proporção de cheios e vazios, tipo de fenestração, cornija e gárgulas, pedra de armas, o cunho popular) passem, embora, as intervenções sofridas posteriormente, em particular os tectos barrocos revelados em caixotões de madeira policromada. Hoje não tenho dúvidas em afirmar que essa destruição constitui um dos golpes mais violentos vibrados nos últimos anos no acervo patrimonial da vila. Em nada se desemerece se a compararmos se a compararmos com a brutal demolição da casa do Patim, ou da dos Achiolis (ao Arrabalde), ou até do Hospital Velho da Misericórdia. E se estas desaparecem numa época menos que insensível à noção de património arquitectónico e à necessidade da sua conservação, aquela foi desfeita quando esta noção constituia já uma preocupação dominate de qualquer país civilizado (e Portugal era-o!). E, pior ainda, foi permitida a sua substituição por um edifício sem qualidade, concebido sem preocupação de escala e que alterou profundamente a hierarquia da estrutura urbana existente. Os valores admitidos dos indíces volumétricos e de ocupação do solo, conferem-lhe uma importância que o ultrapassa e forçam a uma situação de subalternidade os edifícios vizinhos, em particular a velha câmara e o pelourinho que perdem a promeninência, apesar da dimensão do espaço livre envolvente. Em 1970, perante a iminência da demolição, uma ilustre Senhora que, há 83 anos vinha assistindo à transfiguração constante da sua terra, escreveu, apreensiva, ao Director Geral dos Serviços de Urbanização, solicitando urgente intervenção. A resposta não se fez tardar. A 5 de Janeiro de 1971 a Direcção de Urbanização do Distrito de Viana do Castelo enviava o seguinte ofício (Ofº 19 - Proc.º U/7):

Exma. Senhora
D. Maria Rita Magalhães de Abreu Coutinho
Casa do Chafariz

PONTE DE LIMA


[...]

Relativamente à carta de V. Ex.ª dirigida ao Exmo. Engenheiro Director-Geral destes Serviços, informa-se que superiormente foi determinado esclarecer V. Ex.ª do seguinte:

-Reconstrução de um prédio particular-

Depois de termos obtido pareceres de técnicos sobre o interesse da casa a demolir, referida na carta de V. Ex.ª, verificou-se que a mesma não tem qualquer interesse arquitectónico, e que se encontra em mau estado, ameaçando ruína.
O novo edifício pode ser construído com uma cércea mais elevada, ou seja, três pisos, que se harmonize com os contíguos, e a sua arquitectura poderá enquadrar-se devidamente no ambiente do local.
[...]


Este ofício, que não se comenta, deve ficar registado neste local. Assim, fará também parte do património histórico de Ponte de Lima.
"

João gomes d´Abreu (engenheiro civil-urbanista)