terça-feira, 27 de julho de 2010

A repetição de fórmulas




É frequente depararmo-nos com o sucesso de um determinado feito que colhe a aprovação generalizada do público. Tomadas de decisões ou obras felizes que nos enchem de confiança ilusória para repetir esta fórmula como garante de sucesso e conforto. No entanto, qualquer criativo apercebe-se rapidamente da perda de vigor que a exploração de um mesmo tema envolve. O ridículo apodera-se desse acto criativo ao ponto de descredibilizar o obra primeira.

É curiosa a percepção desta lógica de pensamento nas intervenções no centro histórico de Ponte de Lima. A aposta em soluções criativas e únicas que nos distinguiam perante outros munícipios foi colocada de lado para um enfoque em intervenções previamente testadas.
O caso mais pragmático será o da estatuária. O que era inicialmente um caso único que introduzia um carácter inusitado e de referência a um determinado local, transforma-se à quarta ou quinta repetição num ridiculo evento perceptível a qualquer turista.

O segundo caso será o ajardinamento do espaço público. Ponte de Lima fez um trabalho notável neste ponto, criando uma "escola" de jardineiros criativos e que têm sido excelentes embaixadores da vila. Na hora de intervir no areal a solução lógica assentou no seu ajardinamento à imagem do que acontece nos restantes jardins públicos. Soluções anunciadas como soluções de compromisso mas que inutilizam qualquer desejo de plano mais ambicioso.
O tema do areal nunca deveria ser o verde mais sim o branco, a cor tradicional deste espaço. O areal como espaço com características inusitadas num espaço urbano é uma oportunidade para introduzir variedade paisagística à vila para além do verde. A ponte medieval foi a primeira a acusar o excesso de desenho; monumento tradicionalmente assente num manto de areia que afirmava a sua leitura longitudinal.

Soluções difíceis como a resolução do areal (com ou sem autómoveis) exigiriam soluções únicas e criativas.

3 comentários:

Carlos Gomes disse...

Napoleão afirmara "do sublime ao ridículo vai apenas um passo". Com efeito, à escassez de obras de arte escultóricas que se verificou até aos anos oitenta, então visto como um sinal de imponência das grandes cidades, Ponte de Lima caiu no excesso oposto: pretendendo dar ares de grande cidade, plantou bonecos em cada esquina, transformando uma vila nobre e medieval e admirada como tal numa espécie de disneylândia onde tudo não passa de uma fábula. Falta ainda erguer estátuas ao vinho verde e à broa de milho...
Em relação ao areal, penso que a sua transformação em jardim, além de absurda, reduzirá drasticamente a luminosidade natural da vila limiana. E, tal como se verificou com outras intervenções recentes, o município não tem competência administrativa para intervir nessa área pelo que será mais gasto desperdiçado resultante de mais um eventual embargo... um areal é um areal!

Carlos Gomes disse...

É justo reconhecer o trabalho que Ponte de Lima tem desenvolvido na área da jardinagem. O trabalho patente e que embeleza a vila é o reflexo também do elevado profissionalismo dos jardineiros limianos, quais artistas que aplicam o seu saber a uma arte efémera mas, nem por isso, menos meritória. E, o seu exemplo - o exemplo da própria autarquia limiana - bem poderia ser seguido por Lisboa que, tristemente, tem deixado degradar os magníficos jardins da Praça do Império. Há muito que desapareceu o relógio de sol, em frente ao mosteiro dos Jerónimos, apenas restando a âncora que serve de ponteiro. E, os símbolos heráldicos que decoram o jardim em redor da fonte luminosa há muito tempo que perderam o seu recorte e colorido.
A autarquia lisboeta possui uma magnífica escola de canteiros, responsável pela calçada à portuguesa que decora as praças da capital. Ela dá formação a canteiros de outras regiões do país. Talvez fosse uma ideia aproveitável estabelecer uma permuta, a nível da formação, entre as autarquias limiana e lisboeta, trnasmitindo mutuamente conhecimentos de jardinagem e de calçada à portuguesa. Que tal?

ALFF disse...

Pois! Infelizmente o que interessa aos autarcas é o que a opinião pública no seu geral acha das coisas não dando voz aos especialistas creditados para o efeito. A Vila como já disse noutras situações estás a tornar-se numa "mulher" vaidosa e cheia de berloques. A sua essência está a ser ofuscada por todos esses bonecos e pedras. Sem dúvida alguma que é ainda das vilas mais agradáveis hoje para se viver mas era bom que começassem a reverter os seus esforços na área social e cultural cada vez mais e melhor.