sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Arquitectura Moderna versus Centro Histórico


Ponte de Lima foi sendo pontuada nos últimos anos com obras de arquitectura marcadamente contemporânea. Refiro-me em particular à recuperação do Mercado Municipal, o novo posto de turismo e o Mercado do Gado na zona de S. João. Qualquer arquitecto que intervenha em centros históricos sabe que está perante um presente envenenado. Não é facilmente assimilado pela população um novo objecto estranho no casario antigo. No entanto, as cidades são feitas de sedimentos cronológicos e a vila de Ponte de Lima é formada por pedaços de vários séculos que foram feitos e refeitos num acto contínuo de acrescentar valor ao espaço comunitário num processo de necessidades. A realidade é que muito do que vemos no espaço do centro histórico como valor inestimável e perfeitamente integrado foi na sua época seriamente criticado. Cito como exemplo a construção do Mercado Municipal nos anos 30 sob um estilo "Português Suave" com as suas altas torres nas extremidades e que alterou a fachada ribeirinha da vila. O rasgar da Rua Cardeal Saraiva até ao rio com a demolição de algum casario setecentista e parte do Hospital da Misericórdia não terá sido pacífica. Com este pensamento, sobre o facto destas obras serem assumidamente modernas julgo que não poderiam ser de outra forma. São mais um sedimento, desta vez do princípio milénio, e que são facilmente identificáveis como tal. O modo como o "novo" se integra com o antigo é conseguído através de mecanismos próprios da competência do arquitecto (escala, proporção, materiais comuns ao restante tecido edificado ou valores históricos e da memória colectiva) mas também a criatividade do autor. A arquitectura tem como papel a resolução de problemas concretos das pessoas, da cidade. Coloca questões de forma a valorizar o objecto em causa com uma solução especial que seja simultaneamente funcional, que faça sentido e que seja obviamente materializada com uma solução esteticamente agradável e coerente. Sou assim contra a procura de um determinado arquitecto no sentido da encomenda de uma obra carismática para a cidade onde sobressaem apenas as suas características escultóricas. Não penso que tenha sido este o caso de Ponte de Lima. Nas três obras que citei reconheço-lhes qualidades arquitectónicas de arquitectos com provas dadas no panorama nacional e que procuraram responder a programas e questões concretas. Com alguma distância da sua inauguração procurarei fazer um balanço da sua presença urbana. O Mercado Municipal do arquitecto José Guedes Cruz surge da necessidade de recuperar o degradado mercado e prepará-lo para os novos tempos. Quebra com o conceito tradicional de pátio fechado onde aconteciam as trocas tornando-o mais transparente através de uma praça que se prolonga para o exterior. Concentrou a intervenção num estreito volume forrado a cobre que o insere de forma inteligente no ambiente cromático da Avenida dos Plátanos. Interessante a forma como este volume de dimensões consideráveis tem um ar efémero, parecendo facilmente desmontável. No entanto vimos definhar toda a dinâmica existente como mercado muito provavelmente por ter-se quebrado com a tipologia de pátio e o equipamento ter sido pensado para a recepção de outros eventos, talvez prevendo uma extinção no futuro como mercado. O posto de turismo do arquitecto João Álvaro Rocha, entre o Arquivo Municipal e o Paço do Marquês, surge da ideia de ligação do Largo da Lapa à cota baixa. O que inicialmente seria um projecto de arranjo urbanístico acabou num pequeno edifício de apoio ao turismo sem que o acesso ao Largo da Lapa tenha sido desenhado de forma eficaz. Porém, este equipamento tem vários pontos positivos na forma como cria novos acessos e atravessamentos ao Arquivo Municipal e ao Paço do Marquês através de um terreno estratégico. A meu ver este edifício insere-se bem no pré-existente com a sua escala e uso de materiais presentes no centro histórico. E se é verdade que o faz de uma forma egocêntrica, atraindo para si as atenções, também o faz valorizando o antigo num jogo de contraste entre gerações. No seu topo, esta intervenção oferece à vila uma belíssima praça enquadrando adequadamente a fachada sul do Paço do Marquês. Pena que para o efeito tenha-se forçado demasiado a inclinação da escarpa contígua à rampa de acesso. Por fim, temos o Mercado do Gado do arquitecto José Manuel Carvalho de Araújo. É uma obra térrea inserindo-se naquela zona predominantemente horizontal. Tem um carácter algo "bruto" na sua concepção com a utilização do betão arquitectónico de forma a responder às exigências de manutenção da actividade a que se propôs; alojamento de gado e outros animais. A lado negro que percorre estas três obras é o facto de todas estarem marcadas por uma grande ambiguidade funcional ou terem uma actividade sazonal. O Mercado Municipal não funciona eficazmente para o efeito mas também não se tem tirado partido das potencialidades daquela grande praça coberta. O Mercado do Gado, pelo contrário, tem servido de pretexto para todo o tipo de eventos. A meu ver alguns dos eventos não se compatibilizam com o espaço; é o caso das feiras do livro ou do artesanato onde me parece insólita a sua convivência num espaço de ar industrial, parca em iluminação e incapaz de rivalizar com a dinâmica da Avenida dos Plátanos. O posto de turismo está geralmente encerrado e é compreensível o desnorte quanto à função a atribuir quando a escassos metros temos o Paço do Marquês com área suficiente para albergar todas as actividades. O maior inimigo de qualquer edifício é a sua inactividade. Como sabemos hoje existe um tipo de turismo em franco crescimento que é o do roteiro das obras modernas de arquitectura como património. Ponte de Lima entrou neste roteiro com estas obras que foram bastante divulgadas e premiadas na imprensa da especialidade. Neste sentido considero uma aposta ganha da Câmara Municipal pela sua coragem em investir num tema tão sensível e sobretudo tão caro aos autarcas. A este roteiro conseguimos incluir também obras de iniciativa particular como o conjunto arquitectónico do Club de Golf, as duas casas do arquitecto Eduardo Souto de Moura, a recuperação do Mosteiro de Refóios do arquitecto Fernando Távora entre outras. Intervenções no território que credibilizam e sedimentam a urgência de uma arquitectura competente para a nossa comunidade.


Jornal Alto Minho (14-02-2008)

1 comentário:

antonio ildefonso disse...

Parabéns pela tua análise André. Parabéns por fazeres mais e mais pela qualidade.Parabéns pela iniciativa. Parabéns por quereres fazer ver os olhos que não vêem. Parabéns pela premência dos teus comentários.

Uma leitura exacta do edificado urbano esclarece opiniões, abrindo por sua vez outros caminhos, desta vez mais acertivos em busca de uma qualidade que ponha termo à falta de saber, quer dos nossos responsáveis, que tanto tardam em encontrar mecanismos que imponham uma qualidade minima, quer da população em geral que, porventura, poderá ser chave para abrandarmos a falta de gosto que grassa pelo pais.

Parabéns pelo teu excelente contributo André Rocha.